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Relendo as Crônicas

RELENDO AS CRÔNICAS DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: TRAMAS DA VIDA E DA LINGUAGEM NO COTIDIANO

Maria Veronica Aguilera (UERJ) 
       Foi, sobretudo, um trabalho muito prazeroso. Partilha de poesia e vida. Reencontro de leitura através de uma pesquisa acadêmica que buscava, fundamentalmente, localizar o ponto de tangência entre o poema e a crônica de Carlos Drummond de Andrade. Viagem empreendida por cerca de 200 textos, com olho de quem estuda a língua, sem abrir mão, entretanto, da sensibilidade e do maravilhamento de leitora, condição sine qua non para o entendimento pleno da obra literária e o respeito que se deve ter em relação à sua unicidade.   
       Na realidade, foi num jornal que descobri Drummond, antes mesmo que seus versos me tomassem. Suas crônicas me seduziam pela maneira como via as coisas do mundo, pela maneira como as dizia. Poética do cotidiano.
       Este não é, entretanto,  o lado mais conhecido do autor centenário que, no ano passado, recebeu justas homenagens, em prosa, verso e bronze. Junto à estátua inaugurada na orla marítima do Rio de Janeiro, cidade onde o escritor viveu a maior parte de sua vida, ou pelas ruas mineiras de Itabira, sua terra natal, muitos  cantam seus poemas; mas a prosa ainda guarda riquezas insuspeitas, como esta:
     O andar-em-mim, do princípio, tão leve se fez que agora é um andar fora e acima de todos os mins pontiagudos, feridos, desarvorados, que a vida ia acumulando. Amendoeiras e jogos infantis do Posto 6 desabrocham como um continente. Chegar, e sua plenitude. 1
       Crônica, expressão de todo dia, de coisas comuns capturadas no seu extraordinário.
       A reunião das crônicas em livros atende a critérios e épocas diversas. "Fala, amendoeira", por exemplo, traz dezenas de textos publicados no jornal Correio da Manhã, verdadeiras obras-primas no gênero, a começar pela que dá título ao livro, rica em sentido e forma, de construções frasais elaboradas e o desdobrar-se lexical e semântico de outono:
          Todas estavam ainda verdes, mas essa ostentava algumas folhas amarelas e outras já estriadas de vermelho, numa gradação fantasista que chegava até o marrom - cor final de decomposição, depois da qual as folhas caem. Pequenas amêndoas atestavam o seu esforço, e também elas se preparavam para ganhar uma coloração dourada e, por sua vez, completado o ciclo, tombar sobre o meio-fio, se não as colhe algum moleque apreciador do seu azedinho. E como o cronista lhe perguntasse - fala, amendoeira - por que fugia ao rito de suas irmãs, adotando vestes assim particulares, a árvore pareceu explicar-lhe:
          - Não vês? Começo a outonear. É 21 de março, data em que as folhinhas assinalam o equinócio do outono. Cumpro meu dever de árvore, embora minhas irmãs não respeitem as estações.
          - E vais outoneando sozinha?
          - Na medida do possível. Anda tudo muito desorganizado, e, como deves notar, trago comigo um resto de verão, uma antecipação de primavera e mesmo, se reparares bem neste ventinho que me fustiga pela madrugada, uma suspeita de inverno. 2
       “Buganvílias”, “Visita”, “Ventania” e “Nascer” são exemplos de textos dignos de figurar em qualquer antologia poética. Há alguma coisa de comum entre as três primeiras e “Fala, amendoeira”. Do significado à construção do texto. Todas falam de Natureza, mas não de um mero estado de contemplação, mesmo porque disse Drummond alguma vez não ser exatamente do tipo contemplativo das chamadas belezas naturais. Mas, como ele também admite, Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza ("Fala, amendoeira").
       Assim, ao falar de todo aquele dilúvio de escarlate ("Buganvílias"), o cronista está atento à íntima relação entre a vegetação e a dona da casa e da trepadeira; às florinhas que caem nas panelas da cozinheira e às raízes e aos alicerces que se entrelaçam.
       “Ventania” é a natureza roendo os bens do homem, divertindo-se em assustá-lo no escuro, convocando velhos medos, modelando fantasmas novos. O furacão, não é lá fora apenas que acontece; é em nós, viajantes que atravessam a noite.
       A “Botticellesca figura” que tematiza “Visita”, uns a chamam primavera, o poeta, estado de espírito: Passará assim por nós, e poucos a identificarão. Poucos, isto é, os sujeitos para quem os negócios mais importantes são os menos corpóreos de todos: uma nuvem, uma irisação do ar, no jogo entre céu e água.3 Impressões: há textos como este em que uma certa condição – fônica, sintática ou lexical, um certo ritmo, uma certa melodia – configuram tal harmonia de forma e sentido que para poema só lhes fica faltando o verso.
       Reza a letra de um samba popular que “a dor da gente não sai no jornal”. Sai, na linguagem de um cronista capaz de traduzi-la. Sem demagogia, palanque, bandeira ou panfletagem; sai quando a poesia resiste até à perda do quem nem chegou a nascer.
          O filho já tinha nome, enxoval, brinquedo e destino traçado. Era João, como o pai, e como aconselhavam a devoção e a pobreza. Enxoval e brinquedo de pobre, comprados com a antecedência que caracteriza, não os previdentes, mas os sonhadores. E destino, para não dizer profissão, ou melhor, ofício, era o de pedreiro, curial ambição do pai, que, embora na casa dos 30, trabalhava ainda de servente. 4
       Todo Drummond nesse parágrafo: a concisão, a argúcia, o apuro machadiano com a língua, nem por isso menos comunicativo; nada que uma ida ao dicionário não resolva e que atrapalhe a expressividade. Simples mesmo era a confiança do pai e da mãe desse menino que viria. Difícil não era a espera. Difícil foi o susto com as dores que vieram, justo numa noite de tempo feio de março que ameaçava carregar o barraco; foi o trem de Campo Grande que não chegava; foi o hospital sem médico e enfermeira que o temporal tinha retido longe.
          (…) “O menino?” “Diz que morreu na incubadora, João.” “E era mesmo como a gente pensava, moreninho, engraçado?” Ela baixou a cabeça. “Não sei, João. Não vi. Eu estava passando mal, eles não me mostraram.”
          E o menino, que tinha sido tanto tempo, deixou de repente de ser. 5
       As folhas amarelecidas do Jornal do Brasil das décadas de 70 e 80 conservam outras tantas preciosidades do cronista, amálgama poético no dia-a-dia, sensibilidade à flor da pele no correr da pauta.
       Linguagem de todos os instantes, sim, que não descarta porém, entre esses, alguns “dos mais densos e importantes da existência” qual os da poesia, a “linguagem de certos instantes”, no dizer de Drummond. O resgate do maravilhamento de um menino de sete anos de idade com a passagem de um cometa esperado e temido não seria um bom exemplo?

          O que aconteceu à noite foi maravilhoso. O cometa de Halley apareceu mais nítido, mais denso de luz e airosamente deslizou sobre nossas cabeças sem dar confiança de exterminar-nos. No ar frio, o véu dourado baixou ao vale, tornando irreal o contorno dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saímos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte, que não houve.  Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo. O rabo dele media… Como posso referir em escala métrica as proporções de uma escultura de luz, esguia e estelar, que fosforeja sobre a infância inteira? 6
       Foi assim que, no exercício da exemplificação, gratificante em si mesmo e fonte constante de redescobertas, abandonei-me o mais possível ao texto. Farol, leme e bússola. Submeti-me à palavra, tal o poeta por certo recomendaria, e por essa via de sedução procurei chegar aos alicerces do fazer poético: rima e ritmo, criação lexical e construção da frase, ou seja, som, plasticidade e mobilidade da linguagem, recursos habilmente explorados pelo autor, um garimpeiro da expressão e amante confesso da palavra sob cujo fascínio construiu sua obra.
       Na confluência da poesia, eis que falamos de estilo, esse algo mais que confere individualidade e unidade à obra criada; bordado, pintura, escultura, música, dança, literatura ou cinema, não importa qual seja a manifestação artística, o estilo grava a assinatura do seu autor, justificando plenamente a origem etimológica da palavra.
       Ressaltando o entrelaçamento dos fenômenos lingüísticos ou evidenciando recursos ainda não devidamento identificados, a análise estilística da crônica durmmondiana comprovou a pertinência da tese (hoje transformada no livro Carlos Drummond de Andrade: a poética do cotidiano), convergindo, em particular, para três fenômenos: a repetição, a convergência e o fechamento rítmico. Eles dão o tom e a medida da cadência da prosa drummondiana, por exemplo, na repetição ad infinitum do som e da imagem. Com o que ficamos, aqui, à guisa de conclusão, relendo " O retratista de crianças":
          “Olha, descobre este segredo: uma coisa são duas – ela mesma e sua imagem.
          Repara mais ainda. Uma coisa são inúmeras coisas.
          Sua imagem contém infinidade de imagens em estado de sonho, germinando no espaço e na luz.
          E as criaturas são também assim, múltiplas de si mesmas.
          A variedade de imagens revela o mundo que nasce a cada instante em que o contemplas: formas, ritmos, ângulos, expressões, impressões, fragmentos, síntese.
          A imagem é um ser vivo, como os demais seres. E quer penetrar em teu espírito, habitá-lo como hóspede afetuoso.
          Se a recolheres com toda pureza da vista e completa simpatia da mente, ela te enriquecerá.
          Estas imagens vão mais longe do que os meios intersiderais de comunicação. Insinuam-se na profunda região da vida.
          Conversam daquele assunto que carregas contigo como baú nostálgico.
          O baú  abre-se, e tua infância te saúda, com inocência de fonte.
          Não pode haver melhor uso da fotografia do que este de alimentar-nos da porção perdida de nossa alma. 7
Referências bibliográficas

1. Obras de Drummond
ANDRADE, Carlos Drummond de. A bolsa e a vida. 7 ed. Rio de Janeiro: José Olympio,   1979.
______. Cadeira de balanço. 8 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976.
______. Fala, amendoeira. 8 ed. Rio de Janeiro: José Olympio,1978.
2. Obras sobre Drummond
AGUILERA, Maria Veronica. Carlos Drummond de Andrade: a poética do cotidiano. 1 ed. Rio de Janeiro: Editora Expressão e Cultura, 2002.

2 comentários:

Anônimo disse...

legal esssa cronica.........

Anônimo disse...

muito legal aiiiiiiiiiiii
adoreiiiiiiii............

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