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A Paisagem de Drummond

Paisagem: como se faz

Esta paisagem? Não existe. Existe espaço
vacante, a semear
de paisagem retrospectiva.

A presença das serras, das imbaúbas,
das fontes, que presença?
Tudo é mais tarde.
Vinte anos depois, como nos dramas.

Por enquanto o ver não vê; o ver recolhe
fibrilhas de caminho, de horizonte,
e nem percebe que as recolhe
para um dia tecer tapeçarias
que são fotografias
de impercebida terra visitada.

A paisagem vai ser. Agora é um branco
a tingir-se de verde, marrom, cinza,
mas a cor não se prende a superfícies,
não modela. A pedra só é pedra
no amadurecer longínquo.
E a água deste riacho
não molha o corpo nu:
molha mais tarde.
A água é um projeto de viver.

Abrir porteira. Range. Indiferente.
Uma vaca-silêncio. Nem a olho.
Um dia este silêncio vaca, este ranger
baterão em mim, perfeitos,
existentes de frente,
de costas, de perfil,
tangibilíssimos. Alguém pergunta ao lado:
O que há com você?
E não há nada
senão o som-porteira, a vaca silenciosa.

Paisagem, país
feito de pensamento da paisagem,
na criativa distância espacitempo,
à margem de gravuras, documentos,
quando as coisas existem com violência
mais do que existimos: nos povoam
e nos olham, nos fixam. Contemplados,
submissos, delas somos pasto
somos a paisagem da paisagem.

Carlos Drummond de Andrade, in “As impurezas do branco”, editado em 1973 ed. José Olympio, Rio de Janeiro.


Referências para a compreensão da paisagem de Drummond

Da relação com o espaço, a paisagem não existe, mas só um espaço vazio (ou esvaziado), ou seja, onde o paisagem e espaço se constituem ao mesmo tempo, um em relação ao outro, mas a inexistência da paisagem não implica a supressão do espaço;

A paisagem é retrospectiva; o que se vê nela é mais adiante, é “para depois”. Mesmo nos objetos presente visíveis, o que existe na paisagem tem uma história precedente e se lança no futuro, ainda está sendo - porque a paisagem é sempre construída e reconstruída;

A visualidade da paisagem não é imediata; o que se oferece para a visão (por enquanto o “ver não ver)”, é construída mais tarde como um tapete (uma trama da paisagem) e como fotografias, não do que se viu, mas de terra imaginária da paisagem);

Composta de sujeitos e não somente de objetos: a última estrofe nem precisa comentar em sua beleza, sutileza e aguda definição da paisagem, país (significativa, espaço de poder - a palavra paisagem significa etimologicamente pequeno país), definida no espaço-tempo (unos),sem concurso da arte (gravuras) nem de normas (documentos), tornando-se ela mesma sujeito (a nos observar), o que nos transforma em "a paisagem da paisagem".

Atividade do Encontro: Construir poesia com o tema “Paisagens de Iguape”

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